Dizem que uma imagem vale por mil palavras, mas eu não estou completamente certa disso. Continuo a pensar que as palavras têm um poder enorme e confesso que me sinto plena quando elas me emocionam.
Eu que até sou de lágrima fácil, é muito comum chorar ao ver um filme, em cenas que apelam à emotividade, ao sentimento. Chorar a ler um livro, um poema é mais difícil. Mas alguns autores já conseguiram, pela força das palavras, pelo que narraram de forma tão intensa, pelo tanto de si que puseram no que escreveram, pela verdade ou verosimilhança dos sentimentos transmitidos, arrancar-me algumas, senão muitas, lágrimas.
Na semana passada aconteceu-me duas vezes.
Primeiro, enquanto pesquisava na internet um poema de Sebastião da Gama sobre a maternidade, para transcrever para a K que estás prestes a ser mãe, tropecei num poema de Miguel Torga, intitulado Mãe. É um poema brutal sobre a morte de uma mãe. É terrivelmente realista, triste e devastador. Ao lê-lo senti-me como se, também eu, naquele momento tivesse acabado de perder a minha mãe e chorei... muito.
Mãe
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga, in 'Diário IV'
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga, in 'Diário IV'
No Sábado à noite enquanto terminava de ler o livro O Diário da Nossa Paixão, de Nicholas Sparks, chorei baba e ranho. É uma história de amor, como já nos acostumou o autor, mas uma que se prolongou durante toda uma vida e que na velhice dos protagonistas toma forma de pequenos milagres, quando a protagonista, sofrendo de Alzheimer, em breves momentos de lucidez consegue recordar-se de quanto ama o seu marido, que diariamente lhe lê o diário da paixão de ambos, numa tentativa de não deixar morrer ou cair no esquecimento esse amor tão grande. É triste, mas simultaneamente é um hino ao amor eterno, se é que ele existe.
Não sei se é da idade, se estou a ficar lamechas... mas, por vezes, as palavras certas exercem um grande poder sobre mim.
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