quinta-feira, 1 de março de 2012

O lado prático da vida?

Na passada segunda-feira tive de fazer tempo num café perto da escola, enquanto esperava pela M, pois cheguei muito cedo. Enquanto lia o Quincas Borba, de Machado de Assis; e bebia um capuccino, não pude deixar de ouvir a conversa do casal sentado na mesa ao lado, pelo teor da mesma.
Antes de continuar o relato devo fazer um parentesis para referir que conheço de vista o casal em questão. Um homem e uma mulher na casa dos sessenta anos, suponho que americanos (pela pronúncia), que costumava ver frequentemente no ginásio. A mulher tem problemas motores gravíssimos, tem muita dificuldade em caminhar, em mover-se e a sua expressão facial é estáctica, pelo que, imagino que o seu problema seja fruto ou de uma doença degenerativa ou de algum acidente.Sempre me comoveu o carinho, a dedicação do esposo, ajudando a sua companheira a caminhar na passadeira, a fazer alguns exercícios que presumo lhe sejam benéficos.
Este casal estava, então, sentado no Cookie Box, conversando sobre a possibilidade de fazer um seguro de vida. Era o homem que falava quase sempre, explicando as duas opções que lhe haviam proposto. Pelo que pude perceber, uma das opções era melhor caso o esposo falecesse primeiro e a outra, caso a esposa o fizesse. Ali estavam aquelas duas pessoas, falando abertamente, tranquilamente, sobre a morte e a forma como poderia benefeciar o conjugue que continuasse vivo. Pode parecer estranho, mas é uma perspectiva prática da vida ou da morte e, sobretudo, tentar garantir que o nosso ou a nossa companheira terá uma situação estável quando já não estivermos cá para assegurar que isso aconteça. Também me pareceu um tema triste, um daqueles que não queremos ter de abordar porque nos faz pensar na efemeridade  da nossa vida e na daqueles que amamos. Imagino que para este homem, a sua própria morte deve ser uma possibilidade preocupante devido à situação da esposa, que é bastante dependente dele. Por outro lado, alguém com um problema como o dela talvez tenha uma esperança de vida mais curta, devido à degradação e degeneração do seu estado de saúde, o que torna a atitude deste senhor ainda mais admirável, pois ele não toma isso em conta, ele quer protegê-la e por isso dizia-lhe "Tu decides o que é melhor para ti!"
Cheira-me a muito amor.

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