sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Golpe de Estado???

Quando acordei no dia 30 de Setembro de 2010 julgava que esse dia seria apenas lembrado como o segundo dia de desempacotamento, já que o contentor com as nossas coisas tinha sido (finalmente) entregue no dia anterior.


Cerca das onze da manhã, estava eu entre caixotes quando o P me telefonou e perguntou: "Sabes alguma coisa do que se está a passar?". Perante a minha resposta negativa, explicou-me que a polícia tinha cortado várias ruas, não era possível circular entre Quito e Cumbaya (onde vivemos), o aeroporto estava fechado, aconselhavam-se as pessoas a não sair de casa porque estavam a ocorrer assaltos, resumindo, o caos instalado.


Primeira pergunta "E a C? Como vamos buscá-la à escola?". Responde o P "Telefona para a escola". Telefonei e nada. Impedido, impedido, impedido...

Entretanto recebemos um email da escola referindo que face aos acontecimentos, o sítio mais seguro para os nossos filhos estarem era a escola, porque tem segurança privada, e, por isso, tudo íria decorrer como num dia normal. Fiquei mais calma!


Lembro-me de pensar, nesse momento de descompressão, que a cidade estava de pernas para o ar e eu em casa descansadíssima, sem saber nada do que se estava a passar á la Lili Caneças, que respondeu que estava a tomar chá com as amigas, quando lhe perguntaran, numa entrevista, onde estava no 25 de Abril! Ainda sorri com a anlogia, mas não foi por muito tempo. Liguei a televisão e os canais locais estavam a emitir programas de entretenimento martinal, o que foi de certa forma apaziguador. Liguei o rádio e aí sim, comecei a perceber que estava tudo mais complicado do que eu pensara.


Recebo um telefonema de uma amiga, dizendo-me que a escola enviara um novo email solicitando que fossemos buscar os nossos filhos a partir do meio dia. Telefono ao P para ir buscar a C imediatamente e ele assim fez.

Mensagem de outra amiga, completamente assustada, dizendo que estava num taxi a dirigir-se para a escola para ir buscar o filho, se eu precisasse trazia a C.

Claro que nesse momento o meu telefone deixara de funcionar em condições e, para além de não receber emails atempadamente,não conseguia saber se o P já tinha chegado à escola, dado que havia ruas bloqueadas.

Entretanto começam a telefonar-me várias amigas e conhecidas, todas já tinham os seus filhos e EU não conseguia falar com o P.

Depois de inúmeras tentativas, chamadas telefónicas, mensagens, acabámos por conseguir falar e o P já tinha a C. Íam passar no escritório para ir buscar o computador e vinham para casa. Ok!

E a espera que não terminava...


Estar em casa sem poder fazer nada(o P disse logo que nem pensar em pôr-me no carro com a M sozinhas, sem sabermos se poderíamos ou não passar, pois poderia ser perigoso estar parada numa acesso bloqueado) é desesperante, mas assim que eles chegaram o meu mundo ficou novamente completo.

E a M dormindo a sesta, claro.


Ligámos a televisão e todos os canais locais não falavam de outra coisa: Presidente sequestrado no hospital da polícia; em frente ao palácio presidencial, no centro de Quito, uma multidão de gente, manifestações da população em todo o país a favor do presidente; os avisos para permanecermos em casa! Parecia surreal. Agora sim, estava completo o pacote de boas vindas! LOL


Entretanto o P numa azáfama tremenda, emails para Basileia, teleconferências, telefonemas...

O Director Geral da Novartis Equador estava no Brasil em reuniões e o P estava a substituí-lo. Timing perfeito. Um gajo fica à frente da empresa durante um golpe de estado!

Ficou decidido que trabalhariam a partir de casa e consoante o desenrolar da situação tomar-se-íam as decisões mais adequadas.


Pelas 22:30 conseguiram libertar o Presidente, imagens em directo. Troca de tiros, pedras, o que se quiser. Balanço final: 1 morto e algumas dezenas de feridos.

Enquanto nas imediações do hospital se travava uma batalha entre a polícia e o exército, o Presidente discursava heroicamente perante a população ao rubro!


Não sei se as razões dos polícias são válidas ou não, porque não conheço a lei contra a qual se manifestavam, mas tenho de concordar com todos aqueles que dizem que esta não é a forma de resolver as coisas em democracia.


Agora está tudo mais calmo, pelo menos em Cumbaya, porque ainda não fomos a Quito. Já está tudo aberto e a funcionar normalmente.


Obrigada a todos os que nos telefonaram, enviaram emails, mensagens. Obrigada por nos terem no vosso coração.



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A minha (P) versão dos mesmos factos:

Nota: Este é o problema do pessoal de Letras (agora sim vou ser linchado) que dá demasiada ênfase aos acontecimentos na tentativa de buscar as melhores palavras. Claro que não foi assim tão dramático, LOL.
Se bem que é compreensível que estando mais longe, não sabendo o que se passa os sentimentos se exponenciem.

A escola enviou um email dizendo que terminava o dia de aulas excepcionalmente às 12:00 mas que os alunos podiam lá permanecer sem problema.

Claro que para jogar pelo seguro e para evitar que mais tarde fosse mais difícil aconselhavam os pais a ir buscar os seus filhos.

Resultado, pânico instalado e trânsito caótico, de qualquer forma demorei 40 minutos a ir buscar a Catarina e regressar ao escritório (normalmente demoraria 20m) onde ainda reuni com um colega (+ a C) e fiz uns telefonemas.

Depois regressamos para casa e era como nada se estivesse a passar.

Em Quito, para além dos locais de conflito no centro da cidade não houve problemas de maior.

À noite o exército decidiu ir resgatar o presidente e houve confrontos (Exército vs. alguns Polícias) dos quais resultaram 3 mortos e vários feridos (pouca coisa para confrontos entre gente armada até aos dentes).

Tudo isto porque o Correa (presidente), que goza de uma popularidade brutal, se armou em herói, afastou a gravata, abriu o peito e disse aos polícias que protestavam: “Matem-me se tiverem coragem!” – fiquei fã! LOL ... depois teve de fugir e por ironia refugiar-se no Hospital da Polícia!
Tudo digno de uma telenovela Sul Americana!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Caixinha Mágica

A partir de hoje vamos sentir-nos um pouco menos longe de Portugal.
Um dia antes do inicialmente previsto (pasmem!!!), vieram instalar a Direct Tv, televisão por satélite, que nos permite ter acesso à RTP Internacional. Ainda que não seja a melhor opção em termos do que a televisão portuguesa tem para oferecer, pelo menos é em português, retrata Portugal e os portugueses e assim sentimo-nos mais perto.
É incrível como um simples canal de televisão faz diferença.
Posso voltar a afirmar, tal como acontecia na Suiça: "Da porta de casa para dentro, estamos em Portugal!"
Não esqueçamos porém o cariz internacional da coisa! Quem conhece a RTPI sabe que muito do que é emitido visa o emigrante e então temos todos aqueles programas do género "França Contacto", "EUA Contacto" sobre emigrantes portugueses bem sucedidos nesses países. Com a quantidades de tugas espalhados pelo mundo, basta imaginar quantos programas desses são emitidos na RTPI! Para além disso brindam-nos com clips de música de bandas e cantores que não correspondem muito ao gosto pessoal cá de casa. Alguns programas são emitidos em diferido e por vezes deixam de fazer sentido, no caso, por exemplo, de debates sobre a actualidade. Até as telenovelas são normalmente reposições com alguns anos.
Whatever! O que importa é que é mais um pouco de Portugal que chega a este lado do mundo!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Como é que se pode não ser feliz?

Numa destas noites eu e o P tínhamos deitado as pequenas, estavamos sentados no sofá da sala e, quando demos por isso, os dois olhavamos para o jardim, iluminado, lindo e dissemos: "Realmente!"

Este realmente sumaria o que sentimos.
Realmente é um privilégio termos duas filhotas marotas, brincalhonas, que nos fazem rir, que nos mimam, que nos levam à exaustão; termos uma família fantástica, que nos apoia, que nos ama; termos amigos verdadeiros, que mesmo longe estão perto; termos uma cadela louca, mas muito doce que sobreviveu a um dia de viagem e outro de encarceramento no aeroporto só para estar junto de nós.

Tudo isto emoldurado por um país acolhedor, por novos amigos, uma casa que cada vez mais se vai tornando nossa e o jardim interior que para além das flores que nos enchem os olhos, é destino de colibris, melros, borboletas...


















Como é que se pode não ser feliz?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rapidinha

Estava eu no carro, regressando da escola da C, quando, no meio da habitual espanholada que se escuta nas rádios desta terra, uma melodia conhecida chamou-me a atenção. Aumentei o volume mesmo a tempo do refrão: "si mi quedo o si mi voy".
Não queria acreditar! Chamarem Udos aos U2, Piedras Rolantes aos Rolling Stones é quase inacreditável, mas uma versão em espanhol do "Should I stay or Should I go" dos Clash, é demais!!!
Como dizem as minhas amigas brasileiras "Pode isso?!" (Não esqueçam a pronúncia)

Um pouco de Portugal

Não sei se foi porque a distância é muito grande, não sei se foi porque sabia que a nossa mudança iria demorar muito a chegar e a ser entregue, o que é certo é que desta vez quando deixámos Portugal trouxe comigo algumas coisas bem Portugueses, bem nossas.
Assim, em cima da lareira temos um lindo galo de Barcelos roxo (cor escolhida pela C, claro), uma pequena caixa de porcelana da Vista Alegre, com uns motivos alusivos aos azulejos pombalinos, uma reprodução de uma caixa de chá da Companhia das Índias e um dos meus gatos de madeira que tanto gosto. Só falta mesmo a garrafa de Vinho do Porto!
Com excepção do galo, que comprámos numa loja muito Portuguesa no aeroporto, Alma Lusa, as outras coisas foram presentes de família e amigos que estavam na nossa casa de Mafra. Comprei também o último CD da Ana Moura e não me canso de ouvir esta mulher cantando a NOSSA música.
Penso que foi uma tentativa de trazer um pouco mais de Portugal para este lado do mundo!
Além disso pode sempre servir para divulgar um pouco do que se faz no nosso país aqui por estas bandas, já que parece que Portugueses no Equador somos nós os quatro cá de casa, um investigador nas Ilhas Galápagos e um fulano que trabalha numa empresa multinacional.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Autocarro da Escola: sim ou não?

Hoje de manhã recebi um mail de uma grande amiga. Consistia num relato apavorado do grande Pedro Ribeiro, que durante duas horas não soube onde estava a sua filha pois, por engano, a pequena entrara na carrinha do ATL errada.
Ao ler as suas palavras, como mãe, senti-me solidária com o seu desepero; e ao mesmo tempo congratulei-me com a opção que fizemos de não deixar a C ir para e regressar da escola num dos muitos "yellow school buses" da mesma.
Se estas coisas acontecem em Portugal o que dizer aqui em Quito! Se juntarmos a este tipo de possibilidades a forma descuidada, agressiva, desrespeitadora de conduzir nesta cidade... basta imaginar. E é isso que não quero fazer: imaginar o que poderá estar a acontecer sempre que o bendito autocarro se atrasar. Segundo outras mães e pais, não são poucas as vezes que isso acontece!
Chamem-me mãe galinha, whatever, prefiro continuar a conduzir os 10 km que separam a nossa casa da escola, subir e descer duas vezes por dia os 400m de altitude que separam Cumbaya de Quito, mas saber que a entrego à porta da escola e que a trago comigo para casa.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Bem vindos à América Latina

Este fim-de-semana o P teve a sua primeira experiência de verdadeira inserção local.
No Sábado de manhã enquanto eu e as pequenas estavamos numa animada festa de aniversário de uma coleguinha da C, o P ficou em casa com um técnico que tentou ligar a nossa TV Cabo de Portugal. Como não estavam a ter resultados, o senhor propos ao P deslocarem-se a sua casa porque a antena parabólica dele era maior. E assim foi. Infelizmente não foi possível captar a emissão, vamos mesmo ter de aderir à tv cabo local e voltar a assistir à RTP Internacional ( para mal dos nossos pecados).
Contudo isso não foi o que marcou o dia. o P ficou tão impressionado, mas pela negativa, que me ligou quando estava a regressar. Dizia coisas como "não estás bem a ver isto!"; "isto parece a Cova da Moura ao quadrado"; "eu nem sei bem onde estou mas espero que consiga voltar a casa"
Pois é, sair da bolha faz-nos conhecer os dois mundos diferentes que existem neste país. A pobreza, a falta de condições do local era tão explícita. Nada parecido com a urbanização onde moramos, onde tudo está bem arranjado, as casa são lindíssimas; nem com os locais que habitualmente frequentamos!